Introdução ao 26º Livro bíblico: Ezequiel

Escritor: Ezequiel.
Lugar da Escrita: Babilônia.
Tema: O Juízo e a Glória de Deus.
Data: c. 590 - 570 a.C.

Em 605 a.C., Joaquim, rei de Judá, entregou Jerusalém a Nabucodonosor, que levou para Babilônia as pessoas preeminentes do país e os tesouros da casa de Deus e da casa do rei. Entre os cativos se achavam a família do rei e os príncipes; os valentes, poderosos; os artífices e construtores; e Ezequiel, filho de Buzi, o sacerdote. (2 Reis 24:11-17; Eze. 1:1-3) Pesarosos, estes israelitas exilados haviam completado a sua cansativa jornada, de uma terra de colinas, fontes e vales para uma de vastas planícies. Moravam então junto ao rio Quebar, no meio dum poderoso império, cercados de um povo de costumes estranhos e de adoração pagã. Nabucodonosor permitiu que os israelitas tivessem as suas próprias casas, servos, e que praticassem o comércio. (Eze. 8:1; Jer. 29:5-7; Esd 2:65) Se fossem diligentes, poderiam prosperar. Cairiam nos laços da religião e do materialismo babilônicos? Continuariam rebeldes contra Deus? Aceitariam o seu exílio como disciplina procedente dele? Haviam de enfrentar novas provações na terra de seu exílio.

 Durante esses anos críticos que culminaram na destruição de Jerusalém, Deus não privou a si nem aos israelitas dos serviços de um profeta. Jeremias atuava na própria Jerusalém, Daniel na corte de Babilônia e Ezequiel era o profeta para os exilados judeus em Babilônia. Ezequiel era tanto sacerdote como profeta, distinção que gozava também Jeremias e, mais tarde, Zacarias. (Eze. 1:3) Do começo ao fim de seu livro dirige-se mais de 90 vezes a ele como “filho do homem”, um ponto importante quando se estuda a sua profecia, porque, nas Escrituras Gregas, Jesus também é chamado de “Filho do homem” cerca de 80 vezes. (Eze. 2:1; Mat. 8:20) Seu nome Ezequiel (hebraico, Yehhez·qé´l) significa “Deus Fortalece”. Foi no quinto ano do exílio de Joaquim, que Ezequiel foi comissionado por Deus qual profeta. Lemos que ainda estava ativo no seu trabalho no 27° ano do exílio, 22 anos mais tarde. (Eze. 1:1, 2; 29:17) Ele era casado, mas a esposa morreu no dia em que Nabucodonosor começou o seu cerco final de Jerusalém. (24:2, 18) A data e a maneira de sua própria morte são desconhecidas.

 Que Ezequiel realmente escreveu o livro que leva seu nome, e que este ocupa um lugar legítimo no cânon da Escritura não é contestado. Estava incluído no cânon nos dias de Esdras e aparece nos catálogos dos primitivos tempos cristãos, notadamente no cânon de Orígenes. A sua autenticidade é também atestada pela notável similaridade entre os seus simbolismos e os de Jeremias e de Apocalipse.  Eze. 24:2-12 Jer. 1:13-15; Eze.23:1-49 Jer.3:6-11; Eze.18:2-4 Jer.31:29, 30; Eze.1:5, 10 Ap.4:6, 7; Eze.5:17 Ap.6:8; Eze.9:4 Ap.7:3; Eze.2:9; 3:1 Ap.10:2, 8-10; Eze.23:22, 25, 26 Ap.17:16; 18:8; Eze.27:30, 36 Ap.18:9, 17-19; Eze.37:27 Ap.21:3; Eze.48:30-34 Ap.21:12, 13; Eze.47:1, 7, 12 Ap.22:1, 2.

 Prova adicional de autenticidade encontra-se no dramático cumprimento das profecias de Ezequiel contra nações vizinhas, como Tiro, Egito e Edom. Por exemplo, Ezequiel profetizou que Tiro seria devastada, e isso se cumpriu em parte quando Nabucodonosor tomou a cidade depois de um sítio de 13 anos. (Eze. 26:2-21) Este conflito não significou o fim completo de Tiro. Contudo, o julgamento de Deus era que Tiro fosse totalmente destruída. Ele predissera por intermédio de Ezequiel: “Vou raspar dela o seu pó e fazer dela a lustrosa superfície escalvada dum rochedo. . . . As tuas pedras, e o teu madeiramento, e o teu pó colocarão no próprio meio da água.” (26:4,12) Tudo isto se cumpriu mais de 250 anos mais tarde, quando Alexandre Magno investiu contra a cidade-ilha de Tiro. Os soldados de Alexandre recolheram todos os entulhos da cidade continental reduzida a ruínas e os lançaram no mar, construindo assim um caminho de acesso à cidade-ilha, de 800 metros. Daí, mediante uma intricada operação de cerco, escalaram as muralhas de 46 metros de altura para tomar a cidade. Milhares foram mortos e muitos foram vendidos como escravos. Segundo Ezequiel também predissera, Tiro se tornou a ‘superfície escalvada dum rochedo e um enxugadouro de redes de arrasto’. (26:14) No outro lado da Terra Prometida, os traiçoeiros edomitas foram também aniquilados, em cumprimento da profecia de Ezequiel. (25:12,13; 35:2-9) E, naturalmente, as profecias de Ezequiel sobre a destruição de Jerusalém e a restauração de Israel também mostraram ser exatas. -- 17:12-21; 36:7-14.

 Ezequiel proclamou, nos primeiros anos de sua carreira profética, os julgamentos certos de Deus contra a Jerusalém infiel e advertiu os exilados contra a idolatria. (14:1-8; 17:12-21) Os judeus cativos não mostravam genuínos sinais de arrependimento. Os homens responsáveis entre eles costumavam consultar Ezequiel, mas não davam atenção às mensagens de Deus que ele lhes transmitia. Prosseguiam com a sua idolatria e práticas materialistas. A perda de seu templo, de sua cidade santa e de sua dinastia de reis lhes foi um terrível choque, mas isto só despertou uns poucos para se humilhar e arrepender. --  Sal. 137:1-9.

 As profecias de Ezequiel, nos anos posteriores, frisaram a esperança de restauração. Censuraram as nações vizinhas de Judá por terem exultado com a sua queda. A própria humilhação delas, juntamente com a restauração de Israel, santificaria a Deus perante seus olhos. Em suma, o propósito do cativeiro e da restauração era: ‘Tanto judeus como pessoas das nações terão de saber que eu sou o SENHOR.’ (Eze. 39:7, 22) Esta santificação do nome de Deus é frisada do começo ao fim do livro, havendo ali pelo menos 60 ocorrências da expressão: “Tereis [ou, terão] de saber que eu sou o SENHOR.” 

CONTEÚDO DE EZEQUIEL

 O livro divide-se de forma natural em três partes. A primeira, capítulos 1 a 24, contém avisos da destruição certa de Jerusalém. A segunda, capítulos 25 a 32, contém profecias de condenação para diversas nações pagãs. A última, capítulos 33 a 48, consiste em profecias de restauração, culminando na visão de um novo templo e uma nova cidade santa. De modo geral, as profecias estão em ordem cronológica, bem como de tópicos.

Deus comissiona Ezequiel como vigia (1:1-3:27). Na sua visão inicial, Ezequiel nota um vento violento, do norte, junto com uma massa de nuvens e um fogo cintilante. De dentro dele saem quatro criaturas viventes, aladas, com rostos de homem, de leão, de touro e de águia. Seu aspecto é de brasas ardentes, e cada qual é acompanhada, como que de uma roda no meio de outra roda de temível altura, com cambotas cheias de olhos. Locomovem-se em qualquer direção em constante unidade. Sobre a cabeça das criaturas viventes há uma semelhança de expansão, e acima da expansão, um trono no qual está “o aspecto da semelhança da glória de Deus”. -- 1:28.
 Deus diz ao prostrado Ezequiel: “Filho do homem, põe-te de pé.” Daí o comissiona a ser profeta para Israel e para as nações rebeldes circunvizinhas. Não importa que escutem ou deixem de escutar. Pelo menos, saberão que houve um profeta do Senhor Deus no meio deles. Deus faz que Ezequiel coma o rolo de um livro, que se torna doce como mel em sua boca. Ele lhe diz: “Filho do homem, constituí-te vigia para a casa de Israel.” (2:1; 3:17) Ezequiel tem de dar fielmente o aviso, senão, morrerá.

Encenando o sítio de Jerusalém (4:1-7:27). Deus ordena a Ezequiel que grave num tijolo um esboço de Jerusalém. Ele tem de encenar um suposto cerco contra ela como sinal para Israel. Para frisar o ponto, ele tem de se deitar diante do tijolo 390 dias sobre o seu lado esquerdo e 40 dias sobre o seu lado direito, subsistindo ao mesmo tempo de parco regime alimentar. Que Ezequiel realmente faz a encenação é indicado pela sua solicitação lamentosa a Deus para mudar de combustível para cozer. -- 4:9-15.
 Deus faz com que Ezequiel retrate o fim calamitoso do sítio, rapando a cabeça e a barba. Uma terça parte disso tem de queimar, uma terça parte picar com uma espada e uma terça parte espalhar ao vento. Assim, no fim do sítio, alguns dos habitantes de Jerusalém morrerão pela fome, pela pestilência e pela espada, e o restante será espalhado entre as nações. Deus fará dela uma devastação. Por quê? Por causa da ofensividade de sua depravada e detestável idolatria. A riqueza não trará alívio. No dia da fúria do SENHOR o povo de Jerusalém lançará sua prata nas ruas “e terão de saber que eu sou o SENHOR”. -- 7:27.

A visão de Ezequiel sobre a Jerusalém apóstata (8:1-11:25). Ezequiel é transportado numa visão à distante Jerusalém, onde vê as coisas detestáveis que sucedem no templo de Deus. Há no pátio um símbolo repugnante que incita Deus ao ciúme. Cavando através da parede, Ezequiel vê 70 anciãos adorando diante de representações, esculpidas na parede, de animais repugnantes e ídolos sórdidos. Desculpam-se, dizendo: “Deus não nos vê. Deus deixou o país.” (8:12). No portão norte, mulheres choram o deus pagão Tamuz. Mas, isto não é tudo! Na própria entrada do templo há 25 homens, de costas para o templo, adorando o sol. Estão profanando a Deus na sua própria face, e ele certamente agirá em seu furor!
 Eis que surgem então seis homens com armas maçadoras nas mãos. Entre eles se acha um sétimo, vestido de linho, portando um tinteiro de secretário. Deus ordena a este homem vestido de linho que passe no meio da cidade e ponha um sinal na testa dos homens que suspiram e gemem por causa das coisas detestáveis que se praticam na cidade. A seguir, ordena aos seis homens que avancem e matem a todos, “o idoso, o jovem, e a virgem, e a criancinha e as mulheres”, em quem não haja sinal. Eles assim o fazem, começando com os homens idosos que estavam diante da casa. O homem vestido de linho relata: “Fiz exatamente como me ordenaste.” -- 9:6, 11.
 Ezequiel vê outra vez a glória do Senhor Deus, que sobe acima dos querubins. Um querubim atira brasas ardentes do meio da rodagem, e o homem vestido de linho as apanha e espalha-as sobre a cidade. Quanto aos dispersos de Israel, Deus promete ajuntá-los outra vez e dar-lhes um novo alento. Mas, que dizer desses iníquos adoradores falsos de Jerusalém? “Hei de trazer seu próprio procedimento sobre a sua cabeça”, diz Deus. (11:21). A glória do SENHOR é vista ascendendo por cima da cidade, e Ezequiel passa a contar a visão aos exilados.

Profecias adicionais em Babilônia relativas a Jerusalém (12:1-19:14). Ezequiel se torna o ator em mais uma cena simbólica. Durante o dia, ele tira de sua casa a sua bagagem para o exílio, e daí, à noite, passa por um buraco na muralha da cidade, com o rosto encoberto. Ele explica que isto é um portento: “Irão para o exílio, para o cativeiro.” (12:11). Estúpidos profetas esses que andam segundo o seu próprio espírito! Clamam: “Há paz!”, quando não há paz. (13:10). Mesmo que Noé, Daniel e Jó estivessem em Jerusalém, não poderiam salvar a nenhuma alma senão a si próprios.
 A cidade é semelhante a uma videira imprestável. A madeira não serve para fazer estacas, nem mesmo tarugos! Ambas as extremidades são queimadas e o meio também fica abrasado -- imprestável! Quão sem fé e imprestável se tornou Jerusalém! Tendo nascido da terra dos cananeus, Deus a recolheu como bebê abandonado. Ele a criou e entrou num pacto de casamento com ela. Deixou-a bonita, “habilitada para a posição régia”. (16:13). Mas ela se tornou prostituta, voltando-se para as nações, ao passarem por ela. Adorou as imagens destas e queimou seus próprios filhos no fogo. O fim dela será a destruição às mãos dessas mesmas nações, seus amantes. Ela é pior do que suas irmãs Sodoma e Samaria. Mesmo assim, Deus, o Deus misericordioso, fará expiação por ela e a restaurará segundo o seu pacto.
 Deus propõe ao profeta um enigma e daí relata a interpretação. O enigma ilustra a futilidade de Jerusalém voltar-se para o Egito em busca de ajuda. Vem uma grande águia (Nabucodonosor) e arranca o topo (Joaquim) de um altaneiro cedro, trazendo-o a Babilônia, e planta em seu lugar uma videira (Zedequias). A videira estende seus ramos para outra águia, o Egito, mas, será bem sucedida? É arrancada pelas raízes! O próprio Deus tomará um tenro rebento da altaneira copa do cedro e transplantá-lo-á para um monte alto e elevado. Ali ele tornar-se-á um majestoso cedro como lugar de residência para “todas as aves de toda asa”. Todos terão de saber que o SENHOR é quem fez isso. -- 17:23, 24.
 Deus repreende os exilados judeus por causa de sua expressão proverbial: “Os pais é que comem as uvas verdes, mas são os dentes dos filhos que ficam embotados.” Não, “a alma que pecar -- ela é que morrerá”. (18:2, 4). Os justos continuarão a viver. Deus não se agrada na morte dos iníquos. O seu agrado é ver o iníquo desviar-se de seus caminhos maus e viver. Quanto aos reis de Judá, semelhantes a leõzinhos novos, foram enlaçados pelo Egito e pela Babilônia. Não se ouvirá mais “a sua voz nos montes de Israel”. -- 19:9.

Denúncias contra Jerusalém (20:1-23:49). Novamente os anciãos dentre os exilados vêm a Ezequiel para inquirir a Deus. O que ouvem é a narração da longa história de rebelião e depravada idolatria de Israel, e um aviso de que Deus pediu uma espada para executar julgamento contra ela. Reduzirá Jerusalém a “uma ruína, uma ruína, uma ruína”. Mas, que esperança gloriosa! Deus guardará a realeza (“a coroa”) para aquele que vem com o “direito legal” e a ele a dará. (21:26,27). Ezequiel recapitula as coisas detestáveis que se fazem em Jerusalém, “a cidade culpada de sangue”. A casa de Israel tornou-se como “escória”, e há de ser ajuntada em Jerusalém e liquefeita ali como numa fornalha. (22:2,18). A infidelidade de Samaria (Israel) e de Judá é ilustrada por duas irmãs. Samaria, qual Oolá, prostitui-se com os assírios e é destruída pelos seus amantes. Judá, qual Oolibá, não aprende disso uma lição, mas age até pior, prostituindo-se primeiro com a Assíria e depois com Babilônia. Ela será totalmente destruída, “e tereis de saber que eu sou o Soberano Senhor Deus”. -- 23:49.

Começa o sítio final de Jerusalém (24:1-27). Deus anuncia a Ezequiel que o rei de Babilônia cercou Jerusalém neste décimo dia do décimo mês. Compara a cidade murada a uma panela de boca larga, sendo os seletos habitantes a carne dentro dela. Por meio de fervura, tire-se toda a impureza da abominável idolatria de Jerusalém! Naquele mesmo dia a esposa de Ezequiel morre, mas, o profeta, obedecendo a Deus, não pranteia. Isto é sinal de que não devem prantear a destruição de Jerusalém, pois é julgamento da parte de Deus, para que saibam quem ele é. Deus enviará um fugitivo para notificar a destruição do “belo objeto de sua exultação” e, até que este chegue, Ezequiel não mais deve falar aos exilados. -- 24:25.

Profecias contra as nações (25:1-32:32). Deus prevê que as nações circundantes se regozijarão com a queda de Jerusalém e aproveitarão a ocasião para lançar vitupério sobre o Deus de Judá. Não ficarão impunes! Amom será dado aos orientais, e Moabe também. Far-se-á de Edom um lugar devastado, e serão executados contra os filisteus grandes atos de vingança. Todos eles, diz o Senhor Deus, “terão de saber que eu sou o SENHOR, quando eu trouxer sobre eles a minha vingança”. -- 25:17.

 Tiro é mencionada de modo especial. Orgulhando-se de seu próspero comércio, é semelhante a um belo navio no meio dos mares, mas logo jazerá quebrada nas profundezas das águas. “Sou deus”, jacta-se o seu líder. (28:9) Deus faz com que seu profeta profira uma endecha relativa ao rei de Tiro: Qual belo querubim ungido, ele tem estado no Éden, jardim do Senhor, mas Deus o expulsará do seu monte como profano e será devorado por um fogo que sai de dentro dele próprio. Deus diz que Ele será também santificado por trazer destruição sobre a desdenhosa Sídon.

 Deus manda então que Ezequiel se oponha firmemente ao Egito e seu Faraó e que profetize contra eles. “Meu rio Nilo é meu, e eu é que o fiz para mim mesmo”, jacta-se Faraó. (29:3). Faraó e os egípcios que crêem nele terão de saber que o SENHOR é Deus, e a lição será dada por meio de uma desolação de 40 anos. Ezequiel insere aqui algumas informações que realmente lhe foram reveladas mais tarde, Deus dará o Egito a Nabucodonosor como compensação pelo seu serviço de desgastar a Tiro. (Nabucodonosor levou muito pouco despojo de Tiro, visto que os tírios escaparam com a maior parte de sua riqueza para a sua cidade-ilha.) Numa endecha, Ezequiel revela que Nabucodonosor despojará o orgulho do Egito, e “terão de saber que eu sou o SENHOR”. -- 32:15.

Vigia para os exilados; predita a restauração (33:1-37:28). Deus recapitula com Ezequiel a sua responsabilidade qual vigia. O povo está dizendo: “O caminho de Deus não é acertado.” Portanto, Ezequiel precisa tornar-lhes claro quão errados estão. (33:17). No quinto dia do décimo mês. Chega de Jerusalém um fugitivo, para dizer ao profeta: “A cidade foi golpeada!” (33:21). Ezequiel, então livre outra vez para falar aos exilados, diz-lhes que são fúteis quaisquer pensamentos que tenham quanto a socorrer a Judá. Embora venham a Ezequiel para ouvir a palavra de Deus, ele é para eles apenas como cantor de canções de amor, alguém que tem voz bonita e que toca bem um instrumento de cordas. Não prestam atenção. Todavia, quando isso suceder, saberão que havia no meio deles um profeta. Ezequiel repreende os falsos pastores que abandonaram o rebanho para apascentar a si mesmos. Deus, o Pastor Perfeito, ajuntará as ovelhas dispersas e as trará a um pasto opulento, nos montes de Israel. Ali suscitará sobre eles um só pastor, ‘o Seu servo Davi’. (34:23). O próprio SENHOR se tornará o Deus deles. Fará um pacto de paz e enviará sobre eles chuvas de bênçãos.
 Ezequiel profetiza mais uma vez a desolação para o monte Seir (Edom). No entanto, os lugares devastados de Israel serão reconstruídos, pois Deus terá compaixão de seu santo nome, para o santificar perante as nações. Dará a seu povo um coração novo e um espírito novo, e a sua terra se tornará outra vez “como o jardim do Éden”. (36:35). Ezequiel vê a seguir uma visão de Israel representado por um vale de ossos secos. Ezequiel profetiza sobre os ossos. Estes começam miraculosamente a ter outra vez carne, fôlego e vida. Assim abrirá Deus as sepulturas do cativeiro em Babilônia e restaurará Israel outra vez na sua terra. Ezequiel toma duas varetas que representam as duas casas de Israel, Judá e Efraim. Tornam-se uma só vareta na sua mão. Assim, quando Deus restaurar a Israel, serão unidos num só pacto de paz sob o Seu servo “Davi”. (37:24).

O ataque de Gogue de Magogue contra o Israel restaurado (38:1-39:29). Daí virá uma invasão de outra parte! Gogue de Magogue, atraído para o ataque pela torturante paz e prosperidade do povo restaurado de Deus, fará o seu ataque frenético. Ele se precipitará para os engolfar. Nisto Deus se levantará no fogo da sua fúria. Fará com que a espada de cada um se volte contra seu irmão, trará sobre eles a pestilência e o sangue e uma descarga de chuva de pedras, fogo e enxofre. Sucumbirão sabendo que Deus é “o Santo em Israel”. (39:7) O seu povo acenderá fogos com o destroçado equipamento de guerra do inimigo e enterrará os ossos no “Vale da Massa de Gente de Gogue”. (39:11) As aves de rapina comerão a carne e beberão o sangue dos abatidos. Dali em diante, Israel habitará em segurança, não havendo ninguém para os atemorizar, e Deus derramará sobre eles o seu Espírito.

A visão de Ezequiel sobre o templo (40:1–48:35).  No 14° ano desde a destruição do templo de Salomão, e os arrependidos dentre os exilados necessitam de encorajamento e esperança. Deus transporta Ezequiel numa visão à terra de Israel e o coloca sobre um monte muito alto. Aqui, em visão, ele vê um templo e “ao sul algo como a estrutura de uma cidade”. Um anjo lhe instrui: “Conta à casa de Israel tudo o que estás vendo.” (40:2, 4). Daí, mostra a Ezequiel todos os pormenores do templo e seus pátios, medindo os muros, os portões, as saletas da guarda, os refeitórios e o próprio templo, com o seu lugar Santo e o Santíssimo. Leva Ezequiel à porta oriental. “E eis que vinha a glória do Deus de Israel da direção do leste, e sua voz era como a voz de vastas águas; e a própria terra brilhava por causa da sua glória.” (43:2). O anjo instrui plenamente a Ezequiel relativo à Casa (ou templo); o altar e seus sacrifícios; os direitos e os deveres dos sacerdotes, dos levitas e do maioral e a repartição das terras.
 O anjo traz Ezequiel de volta à entrada da Casa, onde o profeta vê saírem águas do limiar da Casa para a banda do oriente, do lado sul do altar. Começam como um fio de água que fica cada vez maior até virar uma torrente. Daí, corre para o mar Morto, onde os peixes passam a viver e surge uma indústria pesqueira. Em ambos os lados da torrente, árvores fornecem alimento e cura para as pessoas. A visão dá em seguida as heranças das 12 tribos, não despercebendo os residentes estrangeiros e o maioral, e descreve a cidade santa ao sul, com os seus 12 portões chamados segundo as tribos. A cidade há de ser chamada por um nome mui glorioso: “O Próprio Deus Está Ali.” (48:35).

TIRANDO PROVEITO PARA OS NOSSOS DIAS

 Os pronunciamentos, as visões e as promessas que Deus proporcionou a Ezequiel foram todos fielmente transmitidos aos judeus no exílio. Embora muitos zombassem e escarnecessem do profeta, alguns creram realmente. Estes tiraram grande proveito. Foram fortalecidos pelas promessas de restauração. Dessemelhantes de outras nações levadas ao cativeiro, preservaram a sua identidade nacional, e Deus restaurou um restante, segundo predissera. (Eze. 28:25, 26; 39:21-28; Esd 2:1; 3:1) Eles reconstruíram a casa de Deus e renovaram ali a adoração verdadeira.

 Os princípios delineados em Ezequiel são também de valor inestimável para nós hoje. A apostasia e a idolatria, juntamente com a rebelião, só podem conduzir ao desfavor de Deus. (Eze. 6:1-7; 12:2-4, 11-16) Cada qual responderá pelo seu próprio pecado, mas Deus perdoará àquele que se desviar de seu proceder errado. Ser-lhe-á concedida misericórdia e continuará a viver. (18:20-22) Os servos de Deus precisam ser fiéis vigias semelhantes a Ezequiel, mesmo em designações difíceis e quando ridicularizados e vituperados. Não podemos deixar os iníquos morrerem sem aviso, ficando assim o sangue deles sobre a nossa cabeça. (3:17; 33:1-9) Os pastores do povo de Deus têm a pesada responsabilidade de cuidar do rebanho. -- 34:2-10.
 Notáveis no livro de Ezequiel são as profecias sobre o Messias. Refere-se a ele como aquele “que tem o direito legal” ao trono de Davi e a quem tem de ser dado. Em dois lugares, fala-se dele como “meu servo Davi”, também como “pastor”, “rei” e “maioral”. (21:27; 34:23, 24; 37:24, 25) Visto que Davi já há muito estava morto, Ezequiel se referia Àquele que havia de ser tanto Filho como Senhor de Davi. (Sal.110:1; Mat.22:42-45) Ezequiel, semelhante a Isaías, fala da plantação de um tenro rebento que será exaltado por Deus. -- Eze. 17:22-24; Isa. 11:1-3.

 É interessante comparar a visão de Ezequiel sobre o templo com a visão da “cidade santa de Jerusalém”, de Apocalipse. (Ap. 21:10) Há diferenças que devem ser notadas; por exemplo, o templo de Ezequiel é separado, e ao norte da cidade, ao passo que o próprio Deus é o templo da cidade, em Revelação. Em cada caso, porém, emana um rio da vida, árvores que dão mensalmente safras de frutos e folhas para cura, e a presença da glória de Deus. Cada visão dá a sua contribuição para que se tenha apreço da realeza de Deus e da sua provisão de salvação para os que lhe prestam serviço sagrado. -- Eze. 43:4, 5 Ap. 21:11; Eze. 47:1, 8, 9, 12 Ap. 22:1-3.

 O livro de Ezequiel frisa que Deus é santo. Revela que a santificação do nome de Deus é mais importante que qualquer outra coisa. “‘Hei de santificar meu grande nome . . . e as nações terão de saber que eu sou o SENHOR’, é a pronunciação do Soberano Senhor Deus.” Segundo mostra a profecia, ele santificará o seu nome destruindo a todos os profanadores desse nome, incluindo Gogue de Magogue. São prudentes todos aqueles que agora santificam a Deus na sua vida, cumprindo seus requisitos para a adoração aceitável. Estes encontrarão cura e vida eterna no rio que emana de seu templo. Transcendente na glória e encantadora na beleza é a cidade que é chamada “O Próprio Deus Está Ali”! -- Eze. 36:23; 38:16; 48:35.

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