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Introdução ao 10º Livro Bíblico:
2 Samuel
Escritores: Provavelmente o sacerdote Abiatar
Lugar da Escrita: Israel
Data: Entre 931 e 722 a.C.
Tema: Rei Davi precursor do Messias
A nação de Israel estava desesperada por
causa da derrota que sofrera em Gilboa e da invasão do país
pelos vitoriosos filisteus em conseqüência disso. Os líderes
de Israel e a nata de seus jovens jaziam mortos. É então
que Davi, o jovem “ungido de Deus”, filho de Jessé, faz sua entrada
propriamente dita na cena nacional. (2 Sam. 19:21) Assim começa
o livro de Segundo Samuel, que bem poderia ser chamado de livro de Deus
e Davi. A narrativa está cheia de ação de toda sorte.
Vai desde o nadir da derrota até o zênite da vitória,
desde a angústia de uma nação dilacerada pelas lutas
internas até a prosperidade de um reino unido e desde o vigor da
juventude até a sabedoria da idade avançada. Aqui se relata
a vida íntima de Davi, que de todo o coração procurava
seguir a Deus. É um relato que deve incitar o leitor a fazer um
escrutínio de seu coração, a fim de estreitar sua
relação com seu Criador e ter o Seu favor.
O nome de Samuel, na realidade, nem sequer é mencionado
no relato de Segundo Samuel, sendo este nome dado ao livro, pelo que parece,
por ter sido originalmente um só rolo, ou volume, com Primeiro Samuel.
Devemos aceitar o livro de Segundo Samuel como
parte do cânon da Bíblia pelos mesmos motivos apresentados
com respeito a Primeiro Samuel. É incontestável a sua autenticidade.
A própria franqueza e sinceridade dos escritores, não passando
por alto nem mesmo os pecados e as faltas do Rei Davi, é, em si,
forte evidência indireta da veracidade desse documento.
Todavia, a evidência mais convincente da
autenticidade de Segundo Samuel reside no cumprimento das profecias, especialmente
as relacionadas com o pacto do Reino feito com Davi. Deus fez a seguinte
promessa a Davi: “Tua casa e teu reino hão de ficar firmes por tempo
indefinido, diante de ti; teu próprio trono ficará firmemente
estabelecido por tempo indefinido.” (2 Samuel 7:16) Mesmo no crepúsculo
do reino de Judá, Jeremias declarou que esta promessa feita à
casa de Davi subsistiria, dizendo: “Assim disse Deus: ‘No caso de Davi,
não se decepará homem seu, impedindo-o de sentar-se no trono
da casa de Israel.” (Jer. 33:17) Esta profecia se cumpriu, pois, mais tarde,
Deus suscitou a “Jesus Cristo, filho de Davi”, da tribo de Judá,
segundo testifica tão claramente a Bíblia. Mat. 1:1.
CONTEÚDO DE SEGUNDO SAMUEL
Eventos no início do reinado de Davi
(2 Samuel 1:1-4:12). Após a morte de Saul, junto ao monte
Gilboa, um amalequita foge da batalha e apressadamente vai ter com Davi,
em Ziclague, para lhe dar a notícia. Procurando agradar a Davi,
inventa a história de que ele próprio tirou a vida de Saul.
Em vez de elogios, o amalequita recebe como recompensa a morte, pois testifica
contra si mesmo, dizendo que matou “o ungido de Deus”. (1:16) O novo rei,
Davi, compõe então uma endecha, “O Arco”, na qual deplora
a morte de Saul e de Jonatã. Este cântico atinge um belo clímax
na expressão comovente do superabundante amor de Davi por Jonatã:
“Estou aflito por ti, meu irmão Jonatã, tu me eras muito
agradável. Teu amor a mim era mais maravilhoso do que o amor das
mulheres. Como caíram os poderosos e pereceram as armas de guerra!”
1:17, 18, 26, 27.
Sob a ordem de Deus, Davi e seus homens mudam-se
com suas famílias para Hébron, no território de Judá.
Ali, os anciãos da tribo ungem a Davi qual rei. O general Joabe
se torna o mais proeminente dos apoiadores de Davi. Contudo, Is-Bosete,
filho de Saul, como rival no trono de Israel, é ungido por Abner,
chefe do exército. Há choques periódicos entre as
duas forças oponentes, e Abner mata um irmão de Joabe. Por
fim, Abner passa para o lado de Davi. Ele leva para Davi a Mical, filha
de Saul, por quem Davi havia pago muito tempo antes o dote do casamento.
Mas Joabe aproveita a oportunidade para matar Abner, vingando assim a morte
de seu irmão. Davi fica muito angustiado com isso, eximindo-se de
qualquer culpa. Pouco depois, o próprio Is-Bosete é assassinado,
enquanto ‘faz a sua sesta do meio-dia’. 4:5.
Davi, rei em Jerusalém (5:1-6:23).
Embora esteja reinando em Judá já por sete anos e seis meses,
Davi se torna agora o rei absoluto, e os representantes das tribos o ungem
para ser rei sobre todo o Israel. Esta é a sua terceira unção.
Um dos primeiros atos de Davi na qualidade de rei do inteiro reino é
capturar a fortaleza de Sião, em Jerusalém, ocupada pelos
jebuseus; ele os surpreende, passando pelo túnel de água.
Davi faz, então, de Jerusalém a sua capital. Deus dos exércitos
abençoa a Davi, tornando-o grande, cada vez mais. Até mesmo
Hirão, o rico rei de Tiro, envia a Davi cedros valiosos e também
trabalhadores para a construção de uma casa para o rei. A
família de Davi aumenta, e Deus faz prosperar o seu reino. Há
mais duas batalhas com os combativos filisteus. No primeiro destes, Deus
rompe as fileiras do inimigo diante de Davi, em Baal-Perazim, dando-lhe
assim a vitória. No segundo combate, Deus realiza outro milagre,
fazendo ouvir um “ruído de marcha nas copas dos lentiscos”, o que
indica que Deus vai à frente de Israel para derrotar os exércitos
dos filisteus. (5:24) Mais uma grande vitória para as forças
de Deus!
Tomando consigo 30.000 homens, Davi põe-se
a caminho para trazer a arca do pacto de Baale-Judá (Quiriate-Jearim)
para Jerusalém. Ao ser transportada ao som da música e com
grande alegria, a carroça em que é carregada dá um
solavanco, e Uzá, que está caminhando do lado, estende a
mão para segurar a Arca sagrada. “Nisso se acendeu a ira de Deus
contra Uzá, e o verdadeiro Deus o golpeou ali pelo ato irreverente.”
(6:7) A Arca fica na casa de Obede-Edom, e, nos três meses seguintes,
Deus abençoa ricamente a casa de Obede-Edom. Depois de três
meses, Davi põe-se a caminho para ir buscar a Arca e levá-la
de modo correto pelo resto do caminho. A Arca é conduzida para a
capital de Davi com gritos alegres, música e dança. Davi
dá livre curso à sua grande alegria, dançando perante
Deus, mas sua esposa Mical desaprova isto. Davi insiste: “Vou festejar
perante Deus.” (6:21) Em conseqüência disso, Mical permanece
sem filhos até morrer.
O pacto de Deus com Davi (7:1-29).
Chegamos, agora, a um dos mais importantes eventos da vida de Davi, diretamente
relacionado com o tema central da Bíblia: a santificação
do nome de Deus por meio do Reino, sob a Semente prometida. Este evento
se origina do desejo de Davi de construir uma casa para a arca de Deus.
Residindo ele próprio numa linda casa de cedro, Davi revela a Natã
seu desejo de construir uma casa para a arca do pacto de Deus. Por intermédio
de Natã, Deus reafirma a Davi Sua benevolência para com Israel
e faz com ele um pacto que subsistirá para sempre. Entretanto, não
será Davi, mas o seu descendente (semente) quem edificará
uma casa para o nome de Deus. Além disso, Deus faz a amorosa promessa:
“E tua casa e teu reino hão de ficar firmes por tempo indefinido
diante de ti; teu próprio trono ficará firmemente estabelecido
por tempo indefinido.” 7:16.
Comovido pela bondade que Deus manifestou, fazendo
este pacto do Reino, o coração de Davi transborda de gratidão
por toda a benevolência de Deus: “Que única nação
na terra é semelhante ao teu povo Israel, que Deus foi remir para
si como povo e designar um nome para si, e fazer para eles coisas grandes
e atemorizantes? . . . E tu mesmo, ó Deus, te tornaste seu Deus.”
(7:23, 24) E Davi ora fervorosamente pela santificação do
nome de Deus e para que a sua casa seja firmemente estabelecida perante
Ele.
Davi estende o domínio de Israel (8:1-10:19).
Mas, Davi não reinará em paz. Restam combates a travar. Davi
passa a derrubar os filisteus, os moabitas, os zobaítas, os sírios
e os edomitas, estendendo assim o território de Israel até
os limites fixados por Deus. (2 Sam. 8:1-5, 13-15; Deut. 11:24) Depois,
ele volta a sua atenção para a casa de Saul, a fim de, em
consideração a Jonatã, manifestar sua benevolência
para quem quer que remanesça. Ziba, servo de Saul, chama a atenção
de Davi para Mefibosete, filho de Jonatã, que tem os pés
aleijados. Davi ordena imediatamente que todos os bens de Saul sejam entregues
a Mefibosete e que suas terras sejam cultivadas por Ziba e seus servos,
a fim de fornecerem sustento à casa de Mefibosete. Quanto ao próprio
Mefibosete, comerá à mesa de Davi.
Morrendo o rei de Amom, Davi envia embaixadores
a seu filho Hanum para lhe expressar sua benevolência. Mas os conselheiros
de Hanum acusam Davi de os ter enviado para espiarem o país, e eles
os humilham e os enviam de volta meio nus. Irritado com tal afronta, Davi
envia Joabe com seu exército para vingar essa injúria. Dividindo
as suas forças, ele derrota facilmente os amonitas e os sírios
que haviam vindo para socorrê-los. Os sírios reúnem
novamente as suas forças, só para sofrerem nova derrota causada
pelos exércitos de Deus, sob o comando de Davi, e perdem 700 condutores
de carros e 40.000 cavaleiros. Eis mais uma evidência do favor e
da bênção de Deus sobre Davi.
Davi peca contra Deus (11:1-12:31).
No ano seguinte, na primavera, Davi envia de novo Joabe contra Amom, para
sitiar a cidade de Rabá, mas ele próprio fica em Jerusalém.
Certa noitinha, do terraço de sua casa, ele vê a linda Bate-Seba,
esposa de Urias, o hitita, que se banha. Ele manda trazê-la para
sua casa, tem relações sexuais com ela, e ela fica grávida.
Davi tenta encobrir isto, mandando Urias vir da luta em Rabá e enviando-o
para casa para se revigorar. Mas, Urias recusa agradar a si mesmo e ter
relações sexuais com sua esposa enquanto a Arca e o exército
“estão morando em barracas”. Davi, desesperado, manda Urias de volta
para junto de Joabe com uma carta que diz: “Ponde Urias na frente das mais
fortes cargas de batalha e tereis de retirar-vos de detrás dele,
e ele terá de ser golpeado e morto.” (11:11, 15) Assim morre Urias.
Depois de passados os dias de luto de Bate-Seba, Davi leva-a imediatamente
para sua casa, onde ela se torna sua esposa, e nasce o filho deles, um
menino.
Isto é mau aos olhos de Deus. Ele envia
o profeta Natã a Davi com uma mensagem de julgamento. Natã
diz a Davi que havia dois homens, um rico e outro pobre. Um tinha muitos
rebanhos, mas o outro tinha uma só cordeirinha que criava como animal
de estimação na família e era “como uma filha”. Mas,
quando chegou a ocasião de fazer uma festa, o rico não tomou
uma ovelha dos seus próprios rebanhos, mas a cordeirinha do homem
pobre. Ouvindo isto, Davi fica irado e exclama: “Por Deus que vive, o homem
que fez isso merece morrer!” Em resposta, vêm as palavras de Natã:
“Tu mesmo és o homem!” (12:3, 5, 7) Ele pronuncia então um
julgamento profético de que as esposas de Davi serão violadas
publicamente por outro homem, a sua casa será flagelada por lutas
internas e seu filho, nascido de Bate-Seba, morrerá.
Sinceramente desolado e arrependido, Davi reconhece
abertamente sua falta: “Pequei contra Deus.” (12:13) Cumprindo-se a palavra
de Deus, a criança, fruto da união adúltera, morre
depois de sete dias de enfermidade. (Mais tarde, Davi tem outro filho com
Bate-Seba; a este chamam de Salomão, nome que se deriva de uma raiz
que significa “paz”. Entretanto, Deus manda, por intermédio de Natã,
que o chamem também de Jedidias, que significa “Amado de Deus”.)
Depois desta triste experiência, Joabe chama Davi a Rabá,
onde tudo está pronto para o ataque final. Tendo capturado as reservas
de água daquela cidade, Joabe, por respeito ao rei, deixa para este
a honra de capturar a própria cidade.
As dificuldades na família de Davi
(13:1-18:33). Começam as dificuldades na casa de Davi quando
Amnom, um dos filhos de Davi, se apaixona por Tamar, irmã de seu
meio-irmão, Absalão. Amnom finge estar doente e pede que
lhe enviem a bela Tamar para cuidar dele. Ele a violenta, e daí
a odeia intensamente, de modo que a manda embora em humilhação.
Absalão planeja vingança, aguardando um momento oportuno.
Cerca de dois anos mais tarde, ele organiza um banquete, ao qual Amnom
e todos os demais filhos do rei são convidados. Quando o coração
de Amnom está alegre pelo vinho, ele é apanhado de surpresa
e morto por ordem de Absalão.
Temendo o desagrado do rei, Absalão foge
para Gesur, onde vive em semi-exílio por três anos. No ínterim,
Joabe, o chefe do exército de Davi, trama um meio de reconciliação
entre Davi e Absalão. Faz com que uma mulher sábia de Tecoa
conte ao rei uma história inventada sobre retribuição,
banimento e punição. Quando o rei pronuncia o veredicto,
a mulher lhe revela a verdadeira razão de sua presença: é
que o próprio filho do rei, Absalão, está banido em
Gesur. Davi percebe que Joabe planejou isto, mas dá permissão
para que seu filho retorne a Jerusalém. Passam mais dois anos até
o rei consentir ver Absalão face a face.
Apesar da benevolência de Davi, Absalão
não tarda em conspirar contra seu pai para se apoderar de seu trono.
Absalão é extraordinariamente belo entre todos os homens
valentes de Israel, e isto contribui para torná-lo ambicioso e orgulhoso.
Cada ano, o cabelo que se corta de sua bela cabeleira pesa uns dois quilos
e trezentos gramas. (2 Sam. 14:26, nota) Por meio de diversas manobras
astutas, Absalão começa a seduzir o coração
dos homens de Israel. Por fim, a conspiração é revelada.
Absalão, obtendo permissão de seu pai para ir a Hébron,
anuncia ali o seu propósito rebelde e pede a ajuda de todo o Israel
na sua insurreição contra Davi. Quando grande número
de pessoas toma o lado deste seu filho rebelde, Davi foge de Jerusalém
com uns poucos apoiadores leais, sendo típico destes Itai, o geteu,
que declara: “Por Deus que vive e por meu senhor, o rei, que vive, no lugar
em que meu senhor, o rei, vier a estar, quer para a morte quer para a vida,
lá virá a estar o teu servo!” 15:21.
Ao fugir de Jerusalém, Davi fica sabendo
da traição de um de seus conselheiros de maior confiança,
Aitofel. Ele ora: “Por favor, transforma em estultícia o conselho
de Aitofel, ó Deus!” (15:31) Zadoque e Abiatar, sacerdotes leais
a Davi, e Husai, o arquita, são enviados de volta a Jerusalém,
para observarem as atividades de Absalão e darem notícias.
Nesse meio tempo, no ermo, Davi se encontra com Ziba, o assistente de Mefibosete,
que informa que seu amo espera que agora o reino seja devolvido à
casa de Saul. Quando Davi passa por lá, Simei, da casa de Saul,
amaldiçoa-o e atira pedras nele, mas Davi impede que seus homens
se vinguem.
O usurpador Absalão, em Jerusalém,
tem relações sexuais com as concubinas de seu pai “sob os
olhares de todo o Israel”, seguindo a sugestão de Aitofel. Isto
se dá em cumprimento do julgamento profético de Natã.
(16:22; 12:11) Aitofel aconselha também Absalão a tomar uma
força de 12.000 homens e ir perseguir Davi no ermo. No entanto,
Husai, que ganhou a confiança de Absalão, recomenda outro
plano. E, segundo a oração de Davi, o conselho de Aitofel
é frustrado. Semelhante a Judas, o frustrado Aitofel vai para casa
e se estrangula. Husai relata secretamente os planos do usurpador Absalão
aos sacerdotes Zadoque e Abiatar, que, por sua vez, mandam transmitir a
mensagem a Davi que se acha no ermo.
Isto possibilita que Davi atravesse o Jordão
e escolha o lugar para a batalha na floresta de Maanaim. Ali, ele desdobra
em ordem de combate suas tropas e ordena-lhes que tratem Absalão
com bondade. Os rebeldes sofrem derrota esmagadora. Quando Absalão
foge num mulo por entre a floresta fechada, a sua cabeça fica presa
nos ramos mais baixos de uma grande árvore, e ali fica suspenso
no ar. Encontrando-o em tal apuro, Joabe o mata, desconsiderando totalmente
a ordem do rei. A profunda tristeza de Davi ao ouvir a notícia da
morte de seu filho se reflete na sua lamentação: “Meu filho
Absalão, meu filho, meu filho Absalão! Oh! que eu, eu mesmo,
tivesse morrido em teu lugar, Absalão, meu filho, meu filho!”
18:33.
Eventos finais do reinado de Davi (19:1-24:25).
Davi continua a lamentar amargamente até que Joabe insta com ele
que reassuma a sua devida posição como rei. Ele nomeia agora
a Amasa qual chefe sobre o exército, no lugar de Joabe. A caminho
de volta, ele é bem acolhido pelo povo, também por Simei,
cuja vida Davi poupa. Mefibosete também pleiteia a sua causa, e
Davi lhe dá herança igual à de Ziba. Todo o Israel
e Judá ficam de novo unidos sob Davi.
Entretanto, novas dificuldades hão de surgir.
Seba, um benjamita, proclama-se rei e desvia de Davi a muitos. Amasa, a
quem Davi instrui para convocar homens para pôr fim à rebelião,
encontra Joabe que o assassina traiçoeiramente. Joabe assume então
o controle do exército e persegue Seba até a cidade de Abel
de Bete-Maacá, sitiando-a. Seguindo o conselho de uma mulher sábia
da cidade, os habitantes executam Seba, e Joabe se retira. Por causa de
culpa de sangue, não-vingada, em razão de Saul ter matado
os gibeonitas, há uma fome em Israel que dura três anos. Para
remover essa culpa de sangue, sete filhos da casa de Saul são executados.
E, novamente em batalha contra os filisteus, a vida de Davi é salva
por um triz por Abisai, seu sobrinho. Seus homens juram que ele não
mais deverá sair à batalha com eles “para que não
apagues a lâmpada de Israel!”. (21:17) Três de seus homens
valentes se distinguem, destruindo os gigantes filisteus.
Nesta altura, o escritor insere no relato um cântico
de Davi a Deus, que corresponde ao Salmo 18, e que expressa agradecimentos
por livrá-lo “da palma da mão de todos os seus inimigos e
da palma de Saul”. Com alegria, ele declara: “Deus é meu rochedo,
e minha fortaleza, e Aquele que me põe a salvo. Aquele que faz grandes
atos de salvação para o seu rei e usa de benevolência
para com o seu ungido, para com Davi e para com a sua descendência
por tempo indefinido.” (22:1, 2, 51) Segue-se, então, o último
cântico de Davi, em que admite: “Foi o Espírito de Deus que
falou por meu intermédio, e a sua palavra estava na minha língua.”
23:2.
Voltando à narrativa histórica, encontramos
alistados os homens poderosos que pertencem a Davi; três dos quais
são notáveis. Estes estão envolvidos num incidente
que ocorre quando se estabelece um posto avançado dos filisteus
em Belém, a cidade natal de Davi. Davi expressa o desejo: “Quem
me dera beber da água da cisterna de Belém, que está
junto ao portão!” (23:15) Com isso, os três homens valentes
irrompem pelo acampamento dos filisteus, tiram água da cisterna
e a trazem a Davi. Mas, Davi recusa beber. Em vez disso, derrama-a no chão,
dizendo: “É inconcebível, da minha parte, ó Deus,
fazer isso! Beberia eu o sangue dos homens que andam arriscando as suas
almas?” (23:17) Para ele a água é equivalente ao sangue vital
que arriscaram para obtê-la. A seguir são alistados os 30
homens mais poderosos de seu exército, bem como as façanhas.
Por fim, Davi peca por fazer a contagem do povo.
Implorando misericórdia a Deus, propõe-se-lhe a escolha entre
três tipos de punição: sete anos de fome, três
meses de derrotas militares ou três dias de pestilência no
país. Davi responde: “Caiamos na mão de Deus, porque são
muitas as suas misericórdias; mas não caia eu na mão
dum homem.” (24:14) A pestilência sobre a nação inteira
mata 70.000 pessoas, e só pára quando Davi, agindo segundo
as instruções de Deus, que recebe por intermédio de
Gade, compra a eira de Araúna, onde oferece a Deus sacrifícios
queimados e de participação em comum.
POR QUE É PROVEITOSO
O leitor de hoje encontrará muita coisa proveitosa
em Segundo Samuel! Quase todas as emoções humanas da vida
real são retratadas em linguagem viva e muito expressiva. Assim,
os resultados desastrosos da ambição, da represália
(3:27-30), do desejo ilícito de possuir o cônjuge de outrem
(11:2-4, 15-17; 12:9, 10), de atos traiçoeiros (15:12, 31; 17:23),
do amor baseado somente na paixão (13:10-15, 28, 29), do julgamento
precipitado (16:3, 4; 19:25-30) e da falta de respeito pelos atos de devoção
de outrem constituem fortes avisos para nós. 6:20-23.
Mas, tiramos proveito muito maior de Segundo Samuel,
examinando-o de um ângulo positivo e seguindo seus numerosos e excelentes
exemplos de boa conduta e boas ações. Davi é um modelo
de alguém que demonstrou devoção exclusiva a Deus
(7:22), foi humilde diante de Deus (7:18), enalteceu o nome de Deus (7:23,
26), teve atitude correta na adversidade (15:25), arrependeu-se sinceramente
do pecado (12:13), foi fiel à sua promessa (9:1, 7), manteve o equilíbrio
sob prova (16:11, 12), teve confiança contínua em Deus (5:12,
20) e demonstrou profundo respeito pelas providências tomadas por
Deus e pelas designações feitas por ele (1:11, 12). Não
é de admirar que Davi tenha sido chamado ‘um homem que agradava
ao coração de Deus’! 1 Sam. 13:14.
Em Segundo Samuel, encontra-se também a aplicação
de muitos princípios da Bíblia. Entre estes, os princípios
sobre a responsabilidade coletiva (3:29; 24:11-15), que as boas intenções
não mudam os requisitos de Deus (6:6, 7), que a chefia estabelecida
na organização teocrática de Deus deve ser respeitada
(12:28), que se requer expiação pela culpa de sangue
(21:1-6, 9, 14), que uma pessoa sábia pode evitar que sobrevenha
calamidade a muitos (2 Sam. 20:21, 22; Ecl. 9:15) e que a lealdade à
organização de Deus e a seus representantes precisa ser mantida,
“quer para a morte quer para a vida”. 2 Sam. 15:18-22.
Mas, acima de tudo, Segundo Samuel aponta para o
Reino de Deus e dá brilhantes vislumbres desse Reino que Ele estabelece
nas mãos do “Filho de Davi”, Jesus Cristo. (Mat. 1:1) O juramento
que Deus fez a Davi, relativo à permanência de seu reino (2
Sam. 7:16), é citado em Atos 2:29-36, com referência a Jesus.
Que a profecia: “Eu mesmo me tornarei seu pai e ele mesmo se tornará
meu filho” (2 Sam. 7:14), aponta realmente para Jesus, é demonstrado
em Hebreus 1:5. Isto foi também comprovado pela voz de Deus que
falou desde os céus: “Este é meu Filho, o amado, a quem tenho
aprovado.” (Mat. 3:17; 17:5) Finalmente, o pacto do Reino com Davi é
mencionado por Gabriel nas suas palavras dirigidas a Maria, ao falar de
Jesus: “Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo;
e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai, e ele reinará
sobre a casa de Jacó para sempre, e não haverá fim
do seu reino.” (Luc. 1:32, 33) Quão emocionante parece ser a promessa
da Semente do Reino à medida que se vai desenvolvendo cada fase
diante de nossos olhos!
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